Desastre ambiental em Mariana - Uma visão química

No dia 05 de novembro de 2015 fomos lamentavelmente noticiados com o rompimento de duas barragens da mineradora Samarco em Bento Gonçalves, distrito de Mariana/MG. O rompimento das barragens de Fundão e Santarém ocasionou um derramamento segundo noticiado, de cerca de 62 milhões de metros cúbicos do resíduo ali armazenado.

Em nota à imprensa, a Samarco afirmou que a lama que vazou das barragens é inerte, ou seja, não possui substâncias que podem ser absorvidas pelos seres vivos ou que causem algum tipo de contaminação ambiental. Segundo a empresa, a lama seria composta “em sua maior parte, por sílica (areia) proveniente do beneficiamento do minério de ferro”. De acordo com a empresa, o material “não apresenta nenhum elemento químico que seja danoso à saúde”.

Tal discussão tem levado a inúmeras dúvidas quanto à toxicidade do resíduo que na maioria das vezes é composto por sílica e íons metálicos no entanto análises químicas devem no entanto serem realizadas para averiguar presença de metais pesados como alumínio (Al), mercúrio (Hg), chumbo (Pb) e cadmio (Cd), conhecidamente como potenciavelmente tóxicos.

Estudos apontam que alguns metais tóxicos podem estar presentes em alguns efluentes dessa natureza porém muitas vezes, nas formas inativas e não absorvíveis por ser vivo. Nesse típo de resíduo é comum encontrar presença de Goethita (FeOOH), Hematita (Fe2O3) e sílica (SiO2). Em alguns casos encontra-se ainda o mineral Caulinila (Al2Si2O5(OH)4). Esses e outros minerais tornam-se muito estáveis impedindo a biodisponibilidade do metal ou ainda atuando como agentes "sequestrantes" de outros íons metálicos potencialmente tóxicos.

O DNPM (Departamento Nacional de Produção mineral), a barragem do Fundão é considerada de baixo risco sendo seus rejeitos inofensivos para a saúde. Isso é possível desde que a estabilidade do compósito seja elevada impedindo o íon metálico de ser liberado na forma tóxica. Importante ressaltar que mesmo os metais estando na forma inativa, esse processo pode ser reversível por fatores como pH ou temperatura de algum rio atingido sendo os metais liberados para a forma tóxica.

Há de se preocupar ainda com a contaminação do solo nas mediações pois caso o efluente esteja com presença de metais pesados, mesmo na sua forma inativa, fatores do solo podem influenciar também na conversão em espécies metálicas que podem ser absorvidas por plantas por exemplo.

Mesmo entendendo-se a baixa toxicidade do resíduo, há ainda um dano ambiental imenso na região bem como danos materiais a proprietários que perderam plantações nas proximidades devido à lama. Até o momento imensos danos ao ecossistema já foram noticiados sendo considerados um dos de maio extensão na história do Estado.

Além da suposta toxicidade dos rejeitos e dos danos gerais causados pela lama, há de se mencionar ainda a alteração nos parâmetros físico químicos do Rio Doce o qual abastece grande quantidade de pessoas. Fatores como turbidez, alcalinidade e outros alteram a qualidade da água de captação bem como seu tratamento para consumo humano o que pode levar a uma demora no atendimento à população que faz uso dessa água tratada,

Assim ressalta-se a importância do constante monitoramento químico da água e do solo nas regiões atingidas pelo resíduo, o que certamente deve ser cobrado por todo cidadão, aos nossos governantes.

Fontes:

http://g1.globo.com

http://epoca.globo.com

http://brasil.elpais.com

Ciências da Saúde, v. 4, n. 1 / 2, p. 83-100, 2006

Rev. Árvore vol.27 no.3 Viçosa May/June 2003